quarta-feira, outubro 18, 2006

A Menina da Chuva

Chove. Chove intensamente, copiosamente, desesperadamente. E a menina só, bem pequenina, a rir debaixo do guarda-chuva.
Não tem medo, ou pressa, ou frio - anda bem devagar, de guarda-chuva na mão, a ouvir a chuva que lhe cai em volta, a sentir a chuva que lhe cai em cima (aquela chuva grossa e imensa, a querermos dançar debaixo dela), a fazer-se chuva ela também, porque enquanto os outros fogem para as entradas de prédio, as mesas de café, os sofás à lareira, a menina prende o guarda-chuva entre as mãos e vai, e ri, e chove ela também, cheia de sonhos agarrados ao guarda-chuva por entre as borboletas verdes das abas.
Porque a menina cantarola baixinho (canções doces e suaves a fundirem-se com a chuva já) e debaixo do guarda-chuva anda devagarinho e dança, a rir a chuva. Não há Tempo ou Onde mais, só a menina, a menina a rir debaixo do guarda-chuva roxo de borboletas verdes nas abas, e a chuva, aquela chuva imensa, a chover intensamente, copiosamente, desesperadamente.
Mas são chuva já, aqueles sonhos de menina, são água a fazer-se nuvem a querer chegar já ao arco-íris que fica depois do Sol, e as mãos e os pés e o riso debaixo do guarda-chuva roxo dançam os dias que ainda não vieram, a chuva que nos vem limpar as manhãs, e é por ela, sim!, é por ela, é pela menina do guarda-chuva roxo que chove, é só pela verdade daquele riso, é pelos pés a dançarem a chuva intensa e pela boca a cantar baixinho e pelas mãos a prederem o guarda-chuva roxo, e em breve as borboletas verdes fazem-se voo e o guarda-chuva esquece a gravidade, e voa, voa!, voa uma menina de guarda-chuva nas mãos a sonhar o riso dos dias de chuva grossa e imensa, voa até lá longe, até esse lugar depois do Sol.
Chove. Chove intensamente, copiosamente, desesperadamente. E sob as nuvens a fazerem-se terra há debaixo do roxo uma menina a sorrir, de gotas de chuva nos bolsos.

domingo, outubro 15, 2006

O trabalho de Osíris

Paro o carro. O semáforo, vermelho, carregando uma luz gasta e proibitiva, impede-me de avançar. Sinto-me preso a um mundo de alterações, sem as conseguir acomodar à minha constante e sistemática mudança de personalidade. Na minha direcção vem um velho, solitário, passeando o seu pequeno e ignorante cão, aquela amostra de vida.

Do outro lado, caminha um par de namorados. De mãos dadas abraçam-se como só eles conseguem, passando sobre todas as impossibilidades físicas para se terem um ao outro. Beijaram-se há uns minutos.

Estou sozinho numa estrada perdida no meio da cidade, isolado do movimento perene por este sinal vermelho que me impede de avançar. O tamborilar dos dedos sobre o volante tornou-se um hábito estranhamente necessário que ajuda a passar aquela fracção de tempo entre o vermelho e o verde, entre proibição e permissão, entre o sentimento de estagnação e o de movimento. Tamborilo os dedos como sempre o fiz, sempre sobre o mesmo volante, sempre o mesmo «eu». Espero ansiosamente o verde que teima em não surgir.

O retrovisor do lado esquerdo reflecte uma gelataria. Uma criança agarra a mão da mãe e puxa-a para a loja. É impossível resistir aos sorrisos alegremente estridentes destas criaturas. Um cone, duas bolas: uma de chocolate e outra de nata. Um sorriso nos lábios atravessa aquela cara de orelha a orelha. Vê-se, tão nítido como qualquer vento do norte, como qualquer coração apaixonado, um beijo silencioso de agradecimento. Também a mãe se ri agora, contagiada pelo incrível espectáculo de som que é o riso de uma criança.

No seu passo lento, o velho passa mesmo à minha direita. Vai a deambular palavras de solidão, conversas esquecidas com os familiares que já não vê há muitos anos. O cão que transporta cheira a uma desculpa para ter de sair de casa. Consigo entender a dor do pobre velho, o sofrimento que sente ao pensar na mulher, vítima de cancro, nos dois filhos que largou para a vida e dos quais não ouve nada há quase um ano. O ar que o cerca está impregnado com o sabor a solidão. E a família, que até era muito unida…

Os namorados encontram um banco. Sentam-se. Desafiam ainda mais as leis da física quando bebem cada partícula do corpo um do outro. Talvez os tempos sejam diferentes, talvez a vida seja outra, mas ainda respiram o mesmo ar. Ainda sentem o tempero adocicado do amor que os rodeia. Ainda se beijam com a mesma intensidade com que teria beijado… Se fosse outro!

Aquela mãe ainda sorri. Aqueles namorados ainda riem um para o outro. Aquele velho ainda resmunga. Aquele mundo não era diferente! Distorce-se a minha boca num sorriso maliciosamente esbatido. Vejo que as pessoas ainda são as mesmas, vejo que os sentimentos ainda não se diferenciaram. Vejo, por fim, que fiz um bom trabalho. E sinto-me pronto para avançar. Por isso olho para o lado.

O velho sente-se cativado pela expressividade da minha face. Faço-lhe sinais. Aponto para o cãozito.

*

No terceiro andar daquele edifício velho, com as janelas para a gelataria, o Rapaz olhava atentamente para a rua. Um velho passeava o seu cão. Quando o viu entrar no carro, o Rapaz sentiu um pico de tensão no ar.

O carro começou a andar assim que se viu uma luz esverdeada no semáforo. Uma fracção de segundo antes de o carro ter contornado completamente a esquina, o Rapaz viu-o desaparecer. Não porque estivesse totalmente fora do seu campo de visão, mas porque, e apenas porque, a partir daquele momento, o passageiro que seguia no banco de trás deixara de ter qualquer papel a desempenhar no mundo.