Foi sempre assim. Os seus olhos nem dão conta da primeira lágrima que se solta no azul da manhã. E logo duas lágrimas, três, cinco, e, antes que ela se aperceba, chovem lágrimas como chovem estrelas no ar azul da manhã. E os seus olhos, que são mar e são presa da linha que separa o azul da terra do azul do céu e para a qual converge o pedaço de poeira que se afasta e se afasta e vai deixando o azul da manhã tão mais só, os seus olhos nem reparam na cortina tecida de lágrimas que neles nasce.
E ao longe a mancha de fumo atravessa o horizonte, lançando sem dúvida o cavaleiro em voo de encontro à aventura que o espera do outro lado do mundo. E o azul da manhã torna-se água, o azul da manhã torna-se lago onde caem como estrelas as lágrimas dela.
E da sua dor nascem borboletas em tons de laranja, nascem-lhe entre os cabelos e partem para procurar os cabelos ao vento do cavaleiro, lá pelos montes do outro lado do mundo. E uma menina que se afaste um pouco da sombra da árvore onde os seus pais fazem o piquenique há-de olhar para o céu e ver a ponte de borboletas laranja que o atravessa até à linha que separa o rosa da terra do rosa do céu (pois os piqueniques são fruto da sombra das tardes), e pensará que terão certamente sido enviadas por uma donzela em busca de um cavaleiro que partiu para aventuras do outro lado do mundo. E, agora que as viu, está fadada a ser uma donzela que espera um cavaleiro.
E o tempo passa pelas árvores, soprando-as de branco, e pela menina, fazendo-a rodopiar nos bailes da aldeia à vista dos mancebos da região – qual deles lhe estará destinado por essas mãos que se movem entre nós, a que alguns chamam de deus, outros fado, outros amor? –, passa enfim por toda a parte até à linha que separa o branco da terra do branco do céu. Mas, ao acercar-se da donzela, repara nas borboletas que partem dos seus cabelos em direcção a montanhas que se escondem para lá dos domínios do tempo, segue o olhar que não cessa de procurar no horizonte, mesmo quando ela dorme, ou borda, ou caminha no pomar, ou ouve as raparigas a dançar nos bailes, lembrando-se de quando era uma menina que começava a rodopiar, observa-a intrigado por um pouco e finalmente ilumina-se: Esta é, claro, uma donzela que espera um cavaleiro! E, perante essa evidência, o tempo contorna-a em bicos de pés, em silêncio para que não dê por ele, passando ao seu lado sem a transformar, deixando assim, como sempre sucede, a donzela suspensa do tempo, no azul da manhã, no rosa da tarde, nos tons do entardecer.
E um dia ela acorda antes da manhã, e sabe. Sente-o nos cristais de neve que caem com reflexos de vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta. Sabe-o pela melodia segredada no instante em as cigarras se calaram e os pardais ainda não começaram a cantar. Sabe-o pelo voo das borboletas sobre si. E ela sai num folêgo, a terra girando sob os seus pés, e vê. Vê a neve a cair de mansinho na madrugada. Vê a ponte de borboletas um pouco menos laranja, um tanto mais dourada. E vê. Vê as cores a nascerem no horizonte, no sítio onde as borboletas desaparecem. Vê o arco-íris crescer devagarinho desse ponto, vê-o seguir o rasto de borboletas, vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta a romperem a madrugada. Vê-o acabar assim, quase a tocar o chão, à sua frente, em cintilações de paraíso. E depois vê, vê o brilho dourado sobre o arco-íris. Vê-o aproximar-se, montado em cavalo branco, cavalgando sobre todas as cores. Vê-o aproximar-se de cabelo ao vento, empunhando espada de prata com que traça constelações, envergando manto de pó de estrelas, trazendo as queimaduras de vulcão, a cicatriz de garras de dragão, as pisadelas dos elementos e sobretudo, acima de tudo o que há de ser, o seu riso preso nos lábios, o seu destino enclausurado nos olhos, todos os passos de dança nos braços. E sob um céu cruzado por borboletas douradas e arco-íris, ele chega.
E chegam a manhã e a primavera. Como sempre será.
(espero que consigas ver como eu a manhã e a primavera chegarem, o modo como o arco-íris cresce para cobrir todo o céu quando eles se abraçam, e desce depois sobre a terra em cintilações de paraíso, acordando as flores das sete cores que esperavam cobertas pela neve, a fina e reluzente camada de neve, e a forma como as flores ao despontar chamam as borboletas douradas e elas vêm espalhando pó de borboleta na luz da manhã, a manhã que nasceu no beijo deles atraindo o sol, e a manhã que nasceu ecoando até ao horizonte a melodia segredada por essa coisa meio véu, meio sopro, meio passagem, essa coisa a que alguns chamam deus, outros fado, outros amor.)
quarta-feira, setembro 13, 2006
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
3 comentários:
Oooohh...
Mas eu diria que é também [das donzelas] e [das meninas] e (muito subtilmente mas está lá - eu sei que está lá) [dos quatro de copas].
Eu diria mais:
Eu diria simplesmente que é [das donzelas], porque é, é o choro delas que se ouve, Tídia, o delas!
(ah!, tenho de te obrigar a ler cada palavra da Menina e Moça, eu tenho!)
E e e... as donzelas no fim são só silêncio.
=) Gostei muito, é muito poético, as imagens são tão doces... Acaba-se de ler com um sorriso no rosto...
:)
Enviar um comentário